Meu engraxate
É por causa do meu engraxate que ando em plena desolação. Meu engraxate me deixou.
Passei duas vezes pela porta onde ele trabalhava e nada. Então me inquietei, não sei que doenças mortíferas, que mudança pra outras portas se pensaram em mim, resolvi perguntar para o menino que trabalhava na outra cadeira. O menino é um retalho de hungarês, cara de infeliz, não dá simpatia alguma. E tímido o que torna a gente muito combinado com o universo no propósito de desgraçar esses desgraçados de nascença. “Está vendendo bilhete de loteria”, respondeu antipático, me deixando numa perplexidade penosíssima: pronto!Estava sem engraxate! Os olhos do menino chispeavam ávidos, porque sou dos que ficam fregueses e dão gorjeta. Levei seguramente um minuto pra definir que tinha de continuar engraxando sapatos toda a minha vida e ali estava um menino que, a gente ensinando, podia ficar engraxate bom.
ANDRADE, Mário de. Os filhos da Candinha. São
Paulo: Martins, 1963. p. 167.
É uma típica relação interpessoal contemporânea.
Temo que a hipocrisia revelada esteja infectando todos nós de modo que não percebamos o real significado da importância de convivermos.
O texto mostra uma realidade triste, mas que pouco disto admitimos. Temo que eu tenha sido contagiado por esse mal e vivido dessa forma.
Deus! Expurga-me dos pecados que me são, porventura, desconhecidos.
Faça-me superar as doenças contemporâneas já que não posso superar o regime capitalista, causador do pragmatismo e hospedeiro do egocentrismo.
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