GENIPABÚ - NATAL - RN

GENIPABÚ - NATAL - RN
Amar...ninguém tem e nem pode ter pensamento mais sublime. (Dostoiévisk)

sábado, 1 de março de 2008

Mário de Andrade

Meu engraxate

É por causa do meu engraxate que ando em plena desolação. Meu engraxate me deixou.

Passei duas vezes pela porta onde ele trabalhava e nada. Então me inquietei, não sei que doenças mortíferas, que mudança pra outras portas se pensaram em mim, resolvi perguntar para o menino que trabalhava na outra cadeira. O menino é um retalho de hungarês, cara de infeliz, não dá simpatia alguma. E tímido o que torna a gente muito combinado com o universo no propósito de desgraçar esses desgraçados de nascença. “Está vendendo bilhete de loteria”, respondeu antipático, me deixando numa perplexidade penosíssima: pronto!Estava sem engraxate! Os olhos do menino chispeavam ávidos, porque sou dos que ficam fregueses e dão gorjeta. Levei seguramente um minuto pra definir que tinha de continuar engraxando sapatos toda a minha vida e ali estava um menino que, a gente ensinando, podia ficar engraxate bom.

ANDRADE, Mário de. Os filhos da Candinha. São

Paulo: Martins, 1963. p. 167.


É uma típica relação interpessoal contemporânea.

Temo que a hipocrisia revelada esteja infectando todos nós de modo que não percebamos o real significado da importância de convivermos.

O texto mostra uma realidade triste, mas que pouco disto admitimos. Temo que eu tenha sido contagiado por esse mal e vivido dessa forma.

Deus! Expurga-me dos pecados que me são, porventura, desconhecidos.

Faça-me superar as doenças contemporâneas já que não posso superar o regime capitalista, causador do pragmatismo e hospedeiro do egocentrismo.

0 comentários: